28/01/2006 01:55
Um temporal para nunca mais esquecer
São 23:15 desta sexta feira chuvosa, estou aqui sentando
em frente ao meu computador no frescor do meu lar, de banho tomado, cabelos penteados, vivendo neste momento uma situação
que de nada lembra o terror que passei junto com Letícia a
menos de 2 horas.
Por insistência da mesma, fui busca-la no trabalho por volta
das 18:00, e uma forte chuva se anunciava, ao pegarmos a ponte
Rio Niterói o anunciado temporal caiu sobre nos, a maior chuva
que eu tinha visto em toda minha vida os fortes ventos laterais eram assustadores ao passarmos o vão central nos assustamos
com o volume da água que caia sobre nós.
Eu tentava disfarçar meu medo com a Alameda São Boa Ventura
para que a Letícia não se assustasse.
Após uma hora começamos a descer a ponte e notei que vários
carros estavam estacionados na lateral de sua descida, pegamos
a Alameda, que incrivelmente fluía bem mesmo debaixo de mais
de uma hora de chuva intensa e o Rio que lhe corta ainda não
havia transbordado o que me deixou confiante para continuar
os 3 Km de distancia até nosso condomínio.
Mas o pior estava por vir, ao alcançarmos a clinica de olhos a cerca de somente 1 Km da ponte o transito parou e em não mais
de 5 minutos o rio transbordou unindo em um único rio as duas pistas da Alameda.
É incrível como tudo acontece muito rápido, a água subia vertiginosamente e meu valente carro se recusava a morrer,
foi quando um irresponsável motorista de ônibus nos cortou
pela esquerda o que fez com que meu carro boiasse por alguns segundos em plena alameda, mantivemos a calma e pude ver uma
vaga a apenas 5 metros de nós em frente a clinica, um lugar aparentemente seguro e alto, com muita dificuldade
conseguimos chegar até lá, uma simples troca de pista nos
separava desde lugar seguro, num lampejo senti o carro
fixar-se no chão e pude rapidamente estaciona-lo na vaga
única do hospital, um lugar aparentemente seguro pela altura de sua calçada,
ledo engano.
Ficamos no carro por algum tempo até que notamos que a água
já entrava pelas portas, e então decidimos abandona-lo e irmos para a marquise, por sua vez a água já adentrava o hospital e mesmo naquele lugar já não estávamos mais tão seguros.
Comecei a me preocupar com os dois motoristas que estavam a
minha frente e que infelizmente não conseguiram se abrigar e
com seus carros boiando não se deram conta do perigo que corriam, pois poderiam ser levados pela correnteza para o rio.
É impressionante como perdemos o medo nessa adversidade, como
não damos conta do perigo e mais incrível ainda como existem pessoas covardes, que parecem sentir prazer em somente assistir
a desgraça alheia, pedestres que não tinham vivido o nosso desespero somente olhavam as pessoas nos carros a somente
cinco metros de si, todas se recusavam a ajudar os outros,
eu inquieto, embora estivesse seguro, mas fazia parte de toda aquela tragédia do qual somente havia visto pela TV, não me contive e joguei-me na água para alertar os motoristas que
dentro do carro não conseguem perceber a dimensão do perigo
que estavam passando, aos gritos pedia que saíssem do carro,
pois os mesmo estavam boiando e só ainda não haviam sido carregados pois os ônibus a frente faziam uma barreira natural desviando a forte correnteza para as laterais da pista e para
a calçada onde estava meu carro.
Neste instante gritei para Letícia, que se mantinha calma na calçada para que me arrumasse uma corda com os empregados do hospital, que enfim resolveram ajudar com a corda amarrada no poste tiraram os motoristas de lá mesmo com a forte correnteza
Neste instante dois carros que estavam estacionados ao lado do
meu saíram flutuando a nossa frente como se estivessem sendo manobrados, descendo na contra mão a Alameda, e parando um sobre
o outro a cerca de 20 metros abaixo ao baterem num micro ônibus cheio de passageiros que só podiam assistir a tudo aquilo.
No desespero para não perder meu carro, e com a água na altura
da cintura me agarrei a sua traseira e fiquei ali no meio da enxurrada segurando-o enquanto ele boiava na minha mão e ao
mesmo tempo passando instruções aos motoristas que saiam de
seus veículos no meio da rua.
Do outro lado, na pista de descida assistíamos a outro desespero vendo carros serem jogados no rio, baterem uns nos outros,
as pessoas amarrando seus carros com cordas improvisadas,
uma cena de terror, mal acreditava no que estava acontecendo.
Mas graças a DEUS a chuva foi diminuindo e lentamente a água
foi baixando sentindo-me seguro para voltar para a calçada.
Para meu espanto e indignação de Letícia os mesmos pedestres estavam lá, debaixo da marquise, simplesmente olhando o desespero dos outros, como se aquilo ali fosse somente um espetáculo para assistir e poder contar aos outros.
Gostaria de agradecer, mesmo sabendo que eles nunca lerão este relato, aos empregados do hospital que bravamente se jogaram
na correnteza de água suja, com uma corda nos ajudaram a
resgatar os motoristas.
Fica aqui o relato de UMA NOITE SEM FIM, como forma de desabafo, como testemunha do horror que esta cidade se torna, com a incapacidade de nossos governantes de se anteciparem aos
problemas e criarem alternativas para livrar os cariocas de tamanha calamidade.
Soube a pouco pelo telejornal que pelo menos 5 pessoas morreram afogadas num shopping da Penha e outras que perderam seus carros, outras mais tantos que estão feridos, fica aqui os pêsames de um casal que vivenciou em loco toda essa calamidade que se abateu em nossas vidas.
Soube, ainda, que um Catamarã ficou desgovernado na Baia de Guanabara e outro que se chocou nas pedras, mas não deixando nenhum ferido
Aqui no conforto de minha casa já são 01:30 da manha, não
consigo dormir com as lembranças de todo horror que passamos,
e com as lembranças próximas e ao mesmo tempo inacreditável
de tudo que vivemos a somente quatro horas.
Acho que a fixa ainda não caiu.
Amanha é acordar e contabilizar os prejuízos na minha
Branca de Neve.
Beijos e saudade de todos
na hora em que passavamos por ela
Av. Presidente Roosevelt, em São Francisco Niterói, conhecida como "Rua do Canal">
Aterro do Flamento
Aterro
Centro de Niteroi
Avenida Roberto Silveira
enviada por Nós mesmo
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